No último sábado, dia 05 de julho de 2008, ocorreu a abertura oficial do 39° Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão – Dr. Luís Arrobas Martins.
Conforme nota do dia 10/05/2008, veiculada no site da AME Campos, o tema Música e Literatura inspira a maior festa brasileira da música clássica e uma das maiores da América Latina. O tradicional Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão possui como objetivo não apenas proporcionar espetáculos de qualidade para a população local e turistas que vão para Campos do Jordão para aproveitar as férias de inverno, como também possibilitar que estudantes de música tenham maior contato com grandes nomes, com o intuito de maior desenvolvimento pessoal e profissional de cada um. A maior benefíciária da realização desse evento com certeza é a própria cidade, que ganha cada vez mais notoriedade como pólo de cultura, sempre com grandes nomes se apresentando e dando o privilégio aos apreciadores de boa música de poderem assistir grandes espetáculos.
A abertura do Festival ocorreu no Auditório Claudio Santoro, assim como nos anteriores. Sem contrariar a tradição do evento de abertura, os ingressos esgotaram-se com mais de uma semana de antecedência, e para chegar ao local do concerto enfrentou-se uma grande fila de automóveis e de pessoas andando na rua que dá acesso ao local. No saguão do auditório, grande agitação, com a presença da imprensa, tanto para a transmissão ao vivo do espetáculo, como também devido à presença de personalidades, como por exemplo o sr. Governador, José Serra, e o sr. Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad, entre outros. As pessoas presentes estavam bastante ansiosas para o início da apresentação da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, composta por mais de 100 estudantes, sob o comando do regente John Neschling, devido à grande expectativa criada pelas publicações da imprensa paulista e nacional dando grande destaque ao evento durante toda a semana.
Antes de entrar no auditório, tive a oportunidade de conversar com o sr. Sérgio Ashkenazy, figura já conhecida neste blog por seus diversos comentários já postados. Tivemos uma boa conversa sobre o que esperar do concerto. Uma de suas opiniões me chamou muito a atenção, afirmando que o sr. John Neschling é um maestro “burocrático”, segue exatamente a partitura, sem colocar traços de sua personalidade na execução da peça (opinião esta que aqui coloco como ilustração e com autorização do sr. Sérgio). Após essa conversa, tracei a meta de me concentrar para ouvir ao concerto sem me deixar influenciar por esta opinião.
Às 21 horas deu-se início ao evento, com discursos do sr. Secretário da Cultura do Estado de São Paulo e do Maestro Roberto Minczuk, diretor artístico do Festival pelo quinto ano consecutivo, sendo que este último fez um discurso explicando o tema do Festival deste ano. Ele destacou ainda a influência e grandiosidade do Festival, apontando a presença de músicos estudantes de países como México, Argentina, Chile, entre outros, que deslocaram-se à Campos do Jordão para prestigiar o evento e contribuir com a troca de experiências e aprendizagem dos outros alunos ali presentes. Ainda cumprindo o protocolo, a Osesp executou o Hino Nacional Brasileiro.
Após cumpridas as formalidades, o espetáculo foi iniciado com a peça Desenredo, de João Guilherme Ripper, compositor residente do Festival. De acordo com a resenha no programa distribuído ao público, a peça conta “a histórica peleja de Inácio de Catingueira e Arnoldo Choembergue. Desenredo é uma alegoria sobre o confronto entre o sistema tonal e atonal, que teve lugar na história da música européia do século XX e marcou profundamente a música brasileira através da polêmica entre Camargo Guarnieri e Koellreuter”. Desenredo é uma peça que foi elaborada com certa complexidade, com a primeira parte bastante tranqüila, seguida de um tom um pouco mais agressivo na segunda e terceira partes, inclusive com a presença de coro e solos de Tenor (Anderson Luiz de Souza) e Barítono (João Vitor Ladeira). Entretanto, em alguns momentos a peça foi executada de forma confusa, com a orquestra abafando as vozes dos cantores, causando dificuldades no entendimento das falas.
A segunda peça foi Choros para Clarinete, do M. Camargo Guarnieri, executada basicamente por instrumentos de cordas, sopros e percussão. Conforme define o programa entregue pela organização do evento, “a palavra choro não foi usada na acepção popular, isto é, de um conjunto de instrumentos de sopro, cordas e percussão que, altas horas da noite, percorre as ruas da cidade numa espécie de serenata tocando em frente às casas das namoradas. Choro está substituindo ‘concerto’. O compositor preferiu ‘choro’ porque sua linguagem musical é nacional. Própria do autor e com raízes da terra. Datada de 1956, trata-se de uma peça concisa e camerista, quanto ao uso da orquestra. Contra esse pano de fundo brilha o clarinete em passagens de virtuosismo e principalmente de lirismo modinheiro”. A peça foi executada de forma lenta, em um tom de melancolia, nostalgia, sem contrariar o quanto descrito na crítica apresentada no programa.
No intervalo, tive a oportunidade de conversar com várias pessoas e ouvir opiniões. Algumas delas foram negativas, com alegações de que o clarinete não havia entendido a peça, outras bastante positivas, destacando a beleza do espetáculo.
Por fim, ouvimos a Sinfonia Manfred em si menor, Op.58, de Piotr I. Tchaikovsky. Esta obra é uma “sinfonia em quatro quadros, destinada a ser a primeira grande obra da última fase de sua vida. Balakirev, havia elaborado um resumo do enredo e o oferecera a Mussorgsky. A seguir, ofereceu-o a Tchaikovsky, que o aceitou relutantemente, dizendo: ‘É mil vezes mais agradável trabalhar sem programa. Quando componho uma sinfonia programática, tenho continuamente a sensação de estar iludindo o público e de pagar uma conta com moeda falsa’. Com o passar do tempo, entretanto, passou a considerar Manfredo como uma de suas melhores obras, talvez por sentir nela a presença forte de seu próprio drama existencial”.
No geral, a apresentação foi boa, bem executada. Mas vale ressaltar que em nenhum momento percebeu-se um comportamento vibrante do público como já visto em anos anteriores, chegando ao ponto de no final da última peça o público deslocar-se às saídas sem pedidos do famoso “bis”.