
- Fabio Martino
Morar numa cidade com 250 mil habitantes realmente é um privilégio para poucos. A começar pela dificuldade em se arrumar um lugar para viver! Assim como muitas cidades européias, Karlsruhe também possui muita gente e pouco espaço. São inúmeras as Universidades que aqui existem, e juntamente com elas, a quantidade de estudantes, alemães ou estrangeiros, que precisam de uma moradia. Isso faz com que o custo do aluguel aumente e o tamanho do apartamento “diminua”!
Porém, começar um texto falando mal do lugar aonde vivo, não é o meu objetivo. Aliás, pelo contrário, a “pequena” cidade de Karlsruhe possui uma infra-estrutura que muita cidade grande no Brasil nem sonha em ter. São muitas linhas de bonde que nos leva para onde quisermos, ciclovia ao longo da cidade toda, que por ser na sua maioria plana, nos propicia sempre um agradável passeio de bicicleta, parques e muita área verde.
Inúmeras são também as programações culturais incluindo espetáculos de ballet, ópera, concertos com orquestra, concertos com música de câmara e recitais solo. E não poderíamos deixar de citar a Universidade de Música, abrigada num castelo do período barroco, que com seu charme e simpatia, nem se compara a Universidades de grandes centros como Frankfurt e Stuttgart.
Karlsruhe foi praticamente toda destruída ao longo das duas Grandes Guerras Mundiais que existiram. Pouco permaneceu intacto. Talvez uma casa ou outra, que nos dá a idéia de como eram as construções de época. O próprio castelo, sede da Universidade, foi bombardeado mais de uma vez, e no período de reitoria da Prof. Fany Solter, conseguiu-se que o governo investisse em sua reconstrução de forma fiel ao que era. A única parte original que restou é o que está por debaixo da terra, local da cantina hoje. É claro que no projeto premiado de arquitetura, foram feitas as devidas instalações para se abrigar então uma escola de música. Trata-se de auditórios, salas isoladas acusticamente, uma biblioteca incrível, entre outros mimos…
Mas não posso apenas falar do que é estético e salta aos olhos assim que se chega aqui em Karlsruhe. Aliás, isso é o menos importante. Bastaria ter um bom piano e um excelente professor que poderíamos ter aula então no jardim… Mas eles nós temos também! É então que surge aquilo que salta aos ouvidos: qualidade musical! Dispomos sempre de dois pianos de cauda por sala (paraíso?) e de professores qualificados e dispostos a nos ajudar. De que forma? Nos mostrando, através daquilo que apresentamos, um caminho talvez mais coerente, sensato, uma sonoridade melhor, um dedilhado mais apropriado, enfim, escolhas que farão a diferença no resultado final.
Aliás, esse é realmente um detalhe importante: ninguém é dono de nenhuma interpretação correta ou errada. Ora, estamos numa universidade, coerente é que nos façam pensar! É por isso que curiosamente ouve-se milhares de estudantes tocando os mesmo estudos de Chopin, ou Baladas, ou sonatas de Beethoven, enfim, digamos, repertório básico, porém cada um no seu jeito, temperamento e coerência. Desde que ela exista e o ouvinte acredite que aquilo seja verdade, a música está correta! Muito fácil a teoria, difícil é a prática!
Prática… Muito repertório para estudar… Oito horas diárias de estudo por dia… Ensaios… Aulas teóricas… Provas… Tudo isso faz parte da realidade de um estudante universitário por aqui… A carga é puxada e os professores exigem muito também. Existe sempre a preocupação de se buscar fazer o melhor… A perfeição! Mas nada se compara ao sentimento de subir no palco, esquecer de tudo isso e “passar o seu recado”, qualquer que seja ele… E como recompensa, saber que você conseguiu emocionar algumas dezenas de pessoas que dispuseram de seu tempo para ouvir alguma música…