Assisti com um indizível prazer a apresentação da Orquestra Municipal de São Paulo conduzida pelo genial maestro Florêncio.
O programa foi todo baseado no romantismo alemão. Iniciou-se com a Abertura Coriolano de Beethoven baseada em Shakespeare. Essa obra é uma das dez aberturas compostas pelo gênio de Bonn. Ele gostava do gênero. Só para a sua única ópera, Fidélio, compôs quatro. A execução da orquestra foi arrebatadora, diria mesmo, de arrepiar. O maestro Florêncio é sucessor de uma linhagem de grandes regentes. Começa no início dos anos 40 com Sergei Koussevitzky nos EUA. Ele foi o idealizador do famoso Festival de Tanglewood e mestre de Eleazar de Carvalho. O Festival de Campos do Jordão foi inspirado naquele evento. Pois, há 30 anos atrás o bolsista Florêncio foi aluno e admirador de Eleazar de Carvalho. Além disso é carismático como todos os grandes maestros da história. Quando ele assumiu o pódio e ergueu a batuta o público prendeu a respiração. A resposta da orquestra à sua condução foi precisa e entusiástica.
A alma de uma orquestra são as cordas. Ora, nós percebemos a sua qualidade pelo ataque dos arcos precisos e seguros. Como me disse um amigo, o Florêncio faz a orquestra render 120% do que ela é.
Em seguida tivemos de Mendelsshon – Sonhos de uma noite de verão, também uma música incidental baseada em Shakespeare. O compositor, judeu alemão, era neto do filósofo Moses Mendelsshon, chamado o Platão da Alemanha.
Intelectual refinado, marcou época como compositor e regente preocupado com o sentido histórico do repertório: deve-se-lhe a redescoberta da música de Bach. A obra executada é muito conhecida e apreciada pelo público por seu último movimento, a famosa Marcha Nupcial.
Na segunda parte tivemos o poema sinfônico de Richard Strauss, “Assim falou Zaratrusta”. Também é uma música incidental baseada no conhecido livro do filósofo Friedrich Nietzsche.
Richard Strauss é um romântico tardio que morreu em 1949. Teve uma carreira
atribulada com seu envolvimento musical e não ideológico com o nazismo. Foi
nomeado o Ministro da Música do Reich. Entretanto fez a apresentação de sua ópera, A mulher silenciosa, com libreto do escritor judeu Stefan Zweig.
Goebbels, o poderoso ministro da propaganda queria impedir, mas ele “bateu o pé” e disse que renunciaria. A ópera foi exibida com grande sucesso.
Mas, voltando ao poema sinfônico, é uma obra complexa do ponto de vista musical e que exige enorme atenção para ser apreciada. Começa de forma arrebatadora com uma introdução que foi popularizada por Kubrick no filme
“2001 uma odisséia no espaço”. Depois vai diminuindo de intensidade até um pianíssimo final, tal qual a obra de Nietzsche.
Apenas lamento não ter havido um concerto para instrumento e orquestra dentro de uma boa tradição do concerto.
OBS.: Eu não uso a expressão “Música Clássica”. O Classicismo é um período da música que vai do século XVIII ao início do XIX. Mendelsshon, por exemplo, não é clássico, mas romântico.
Música erudita é outro exemplo de uma forma preconceituosa. Erudito do latim, aquele que é educado e tem cultura. A música é essencialmente um aspecto das emoções. Pode-se gostar e SENTIR uma música sem entende-la racionalmente.
Portanto uso a expressão: Música de concerto.
Ashkenazy comenta apresentação da Orquestra Municipal de São Paulo
Julho 29, 2008 por .

Concordo integralmente com a opinião do crítico sobre a competência e a energia do maestro Florencio. Sob sua batuta a OSM cresceu a um nível que é comparável à da OSESP. E ele tem um domínio técnico das obras que é visível na precisão de suas intervenções — e no resultado musical. Adorei estar lá naquela noite.