O dia 21 do corrente ficará marcado para sempre em minha vida. Tenho
61 anos e fui criado por uma avó inglesa que era uma excelente pianista.
Com a idade de 5 anos ela começou a levar-me em concertos e óperas. Nesses
56 anos tive a felicidade de conhecer e conversar com os maiores pianistas
do século XX. Lili Kraus,Jorge Bolet, Cláudio Arrau, Alicia de La Rocha,
Cristina Ortiz, Roberto Shidon, meu primo Vladimir Ashkenazy, além dos mitos
do piano brasileiro, como Magda Tagliaferro e Guiomar Novaes. A maioria
deles no Festival de Inverno de Campos que assisto desde os seus primórdios.
Mas, “retornando ao início”, no Alcalá Plazza Hotel, em nossa cidade,
as Musas resolveram deixar o Olimpo e vir passear nesta prosaica cidade.
Como não tinham o que fazer foram assistir ao recital do pianista Leo
Hilsdorf para inspirá-lo.
O que se passou aí foi impressionante. Eu fiquei arrepiado ao ouvi-lo do
primeiro ao último compasso. Nunca OUVI e VI nada igual em minha vida.
Procurando voltar à racionalidade, na medida do possível, vamos tentar
analisar o que aconteceu naquela tarde mágica.
Tudo o que começa bem termina bem diz o dito popular. Cheguei junto com o
pianista na sala do recital. Sua primeira providência foi mandar virar o
piano para que ficasse de lado para os espectadores. Essa medida não é só
estética como pensava Liszt em meados do século XIX. Ele queria que as
pessoas vissem suas mãos dedilhando as teclas e seus olhos voltados para
cima como se estivesse recebendo a inspiração diretamente de Deus. Na
verdade, na música de câmara se a abertura do piano ficar em outra direção o
som se reflete nas paredes laterais provocando uma reverberação. Com isso,
aparecem dissonâncias, pelo efeito do eco, extremamente desagradáveis. O
ouvido humano responde a altura sonora logaritimicamente e não linearmente.
A primeira peça executada foi de Villa Lobos e que traduz a
ingenuidade, brejeirice e encanto do folclore brasileiro tão bem aproveitado
por esse compositor.
A seguir tivemos de Granados as Goyescas n.4 e de Albeniz, Navarra.
Ambos são compositores espanhóis do final do século XIX e início do XX. Sua
música reflete o nacionalismo Ibérico com uma grande influência da escola
impressionista francesa. Fauré, Debussy e Ravel foram os maiores expoentes
dessa corrente musical.
Navarra de Albeniz é uma obra dificílima e eu a conhecia interpretada pela
grande Alicia de La Rocha que aqui esteve nos anos 80. Honestamente, achei
a interpretação do Leo mais vibrante dentro do espírito que o compositor se
propôs.
Em seguida fomos agraciados com 2 prelúdios e a famosa Sonata n.2 de
Rachmaninov. Esse gênio russo é um romântico tardio, como Max Bruch,
Ferruccio Busoni e Richard Strauss. Infelizmente após a Revolução Russa
(1917), emigrou para os Estados Unidos. Nunca se adaptou à vida desse país.
Parou de compor dedicando-se à carreira de concertista. O que foi
lamentável.
A leitura que o intérprete fez, principalmente da sonata, foi exuberante e
se o meu xará (Sérgio) estivesse presente, aplaudiria de pé com suas enormes
mãos que segundo alguns musicólogos transparecem em suas composições.
Méritos também para o professor do Leo, sr. Eduardo Monteiro da USP. Atrás
de todo grande músico existe sempre um grande mestre.
Por último, um depoimento de cunho pessoal.
Recentemente, diante de toda a barbárie a que assistimos, (pai que joga a
filha pela janela, criança arrastada com a cabeça para fora do carro), eu
tenho a sensação da ausência de Deus no mundo. Isso estava me levando em
direção a um agnosticismo. Entretanto, depois de ouvir o Leo eu voltei a
acreditar na existência de Deus. Obrigado por mais isso Leo.
Ashkenazy

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