Flavio Lago é um pianista cheio de sensibilidade e intimidade na sua relação com o seu instrumento. E isso tendo iniciado seus estudos relativamente tarde, aos 13/14 anos, estando hoje, sob a tutela de um professor de reputação como Armando Fava Filho. Sei que é um estudante curioso e dedicado na Unesp onde cursa regência. É, ainda, um estudioso sistemático da música popular brasileira, especialmente de Elis Regina. E o fato é que tudo isso é muito mais do que eu posso dizer de minha carreira como crítico de música que se inicia impromptu com esse post no já amplamente reconhecido “Crítica Cultural de Magda Tagliaferro”. Desde já peço misericórdia aos impiedosos internautas da erudição que aqui circulam !
Flavio tem pouco em comum com Magda, nossa heroina, energética e original pianista de cabelos vermelhos, globe trotter apaixonada, rica e pobre numa vida de idas e voltas e uma estratégia interpretativa de “take no prisoners”. Os cabelos de Flavio são cortados de forma comportada, moderna mas sem exageros. Ele certamente encontrará um par por toda a vida, com quem compartilhará um lar, horários bem organizados e aprendizados graduais. Mas, não se enganem leitores desse blog, no fim de seu caminho menos convolute, Flavio pode sim se encontrar com essa mesma Magda e outros grandes intérpretes, naquele lugar exclusivo do paraíso que sabemos estar reservado para aqueles que decifraram com talento os segredos da música.
Beethoven: Sonata Op.10 No.3 – 1º. mov
Beethoven: Sonata Op.27 No.2 “Ao Luar” – 1º. mov
Mozart: Sonata KV570 – 3º mov.
Beethoven: Sonata Op.10 No.3 – 2º. mov.
Foi isso que ouvimos de Flavio Lago numa tarde de outono no elegante e acolhedor Hotel Frontenac em Campos do Jordão. Curiosamente as peças eram intercaladas com textos de um livro, “A Gruta”, de Ricardo Menezes, num esforço lúdico e despretencioso de dar vida ao conteúdo da obra escrita cujo personagem central é o imaginado objeto de amor de Ludwig van Beethoven. Crianças, adultos e idosos na platéia acompanharam as entradas e saídas de texto e música de bom humor e sem formalismos irrelevantes. Ao contrário, ao final o sabor era de uma tarde simpatica, sem arroubos, honesta e humana.
Tecnicamente o jovem pianista está no fim começo de seu desenvolvimento. Flavio teve dificuldades de dedilhar que ficaram evidentes no Mozart, uma peça relativamente exigente e que requereu do jovem a disciplina da parada rápida, da respiração profunda, a retomada da concentração. Flavio deve concentrar seus estudos muito claramente na evolução técnica, nos exercícios físicos mesmo de destreza de mão que lhe faltam por interpreter obras avançadas sem ter a mesma experiência e formação de seus colegas e amigos de Fundação Tagliaferro. Mas nada sugere qualquer dúvida que o rapaz tem o foco e a paciência para percorrer esse caminho tão repleto de distrações e desvios. Ao contrário, quem acompanha sua curta carreira não pode deixar de se impressionar pela naturalidade de sua virtude ao piano. Ele tem uma relação tão espontânea com o instrumento e suas Sonatas foram tão verdadeiras e descomplicadas que todos que o ouviram compartilharam do afeto que ele transmite quase que imediatamente ao sentar ao piano. Todas as peças forma executadas com amplo respeito ao compositor e suas intenções. Todas contaram suas histórias com conexões corretas entre as partes. Todas emocionaram com discrição.
Devo ressaltar que não me parece que o repertório do dia seja o que mais ressalta as qualidades de Flavio Lago. Sinto que poucos jovens têm a capacidade de Flavio para entender gradações de tom e intensidade. Algo me diz que Flavio é mais um impressionista que um romântico – um detalhista descritor de nuances, mais do que um vocal trágico ou apaixonado. É um suspirador de pequenos segredos. Um montador de maquetes. Um joalheiro de miniaturas. Há certamente um lugar potencialmente maravilhoso para um músico assim na cultura do Brasil e do mundo. Veremos à frente – uma década quiçá – se Flavio cumpre a promessa que sua intepretação no Frontenac nos sugeriu.
